Sordidos prazeres No dia-a-dia, estamos cercados por acontecimentos cruéis, que por si só já causam sofrimento. Mas fazemos questão de revivê-los, seja nos noticários, no cinema, nas músicas e até no turismo. Afi nal, de onde vem a satisfação humana em observar cenas e situações macabras?
Por Renato Dias Martino
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Cena do filme Jogos Mortais/Paris Filmes Fotomontagem: Diogo Nascimento |
São inúmeras as manifestações artísticas que tem como tema as faces do “horror”. Obras das artes plásticas retratando momentos de agonia, espetáculos teatrais nos quais o infortúnio e a crueldade são atração central. Uma infinidade de criações, literárias e cinematográficas do passado, como o Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski e a saga de quatro filmes de terror iniciada em 1973 com o clássico O Exorcista (Direção de William Friedkin). Hoje, filmes que vão desde a última versão da Paixão de Cristo, sob o escopo de Mel Gibson, que desenvolveu um clima de enorme realismo nas cenas de torturas, até películas que de tamanho sucesso de bilheteria, seguem em sua quarta edição, como é o caso de Jogos Mortais de Darren Lynn Bousman, no qual requintes de crueldade e mutilações explicitas são as estrelas. Também na música a atenção voltada ao terror aparece. O Death Metal (metal da morte), uma facção compreendida no Heavy Metal, que surge na década de 80, é um estilo musical extremamente agressivo. As bandas trazem nas capas dos discos montagens com cadáveres humanos desmembrados, vocais guturais que parecem ecoar do próprio inferno e letras abordando desastres e situações sangrentas. Um estilo forte dentre o público underground. Um universo vastíssimo de bandas e fãs no mundo todo, com um movimento bem sólido no Brasil.
Estamos falando sobre o encontro de dois conceitos aparentemente antagônicos, horror e prazer. Fatos que juntos, para o senso comum, aparecem como conflito, mas que se revelam com clareza convivendo na personalidade do ser humano, se nos propusermos analisar com mais atenção. É interessante perceber por intermédio de exemplos de manifestações artísticas, que horror e prazer caminham muito próximos. Porém, o ímpeto da contemplação do terror existente no ser humano não encontra satisfação somente de forma artística ou no fictício. A satisfação dessa qualidade de impulso está longe de depender exclusivamente do fruto da imaginação do artista, ela está explícita no comportamento real do humano e inerente a sua história desde sua origem.
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Turismo sinistro: agências criam pacotes a locais onde há conflito atual ou que no passado foram palco de genocídios |
Além das opções que vão do turismo ecológico até visitas a cassinos, as agências de viagem criam um novo e intrigante formato de pacote, os europeus chamam-no de “turismo sinistro”. O tipo de entretenimento que se oferece e cada dia encontra maior demanda, são viagens a locais onde se dá um conflito atual (guerras), campos que no passado foram palco de genocídio, locais de desastres de avião e de assassinatos célebres. A atração pelo “sinistro” também pode ser percebida em um acidente no qual se aglomeram pessoas, muito menos prontas a ajudar, mas impulsionadas pela curiosidade; um impulso que pede para ver se há algum ferido, ou algum morto. Um outro bom exemplo da presença do horror ligado ao entretenimento (satisfação do prazer) é bem evidente e diariamente recorrente na TV. O formato jornalístico encontrado em nossos noticiários que como os tablóides, tão criticados nas décadas passadas, por serem sangrentos (“se espremer sai sangue”), hoje estão disponíveis via satélite no meio da tarde e líderes de audiência. Não precisamos nos esforçar muito para nos lembrarmos de alguém conhecido que não perde uma oportunidade de comparecer a um velório, mesmo sem ter muito vínculo com a família do morto. Na prática clinica psicológica o fato é ainda de maior clareza. Um paciente em análise, tentando me comunicar o quanto se sentia desconfortável diante dessa ambigüidade de impulsos que ocorria em sua mente, me diz o quanto se sente apavorado ao ver serpentes, mas, ao mesmo tempo não consegue evitar olhar atentamente quando existe a possibilidade. Uma experiência que obriga o eu a se dividir é uma defesa para o existir frente ao conflito de idéias.
"CONTEMPLAR O TERROR É UMA TENTATIVA DE ENCONTRAR NO
MUNDO EXTERNO ALGO QUE COINCIDA COM VIVÊNCIAS DO TERROR INTERNO"
Na Biologia moderna, as hipóteses de Charles Darwin propõem uma filogênese, ou um modelo de historia do desenvolvimento da humanidade, em que a racionalidade aparece muito tempo depois do surgimento da espécie, que até então sobrevivera contando com sua capacidade de imposição física. Nesse estágio primal da evolução humana, a capacidade de argumentação verbal não estaria presente e a agressividade era o que regeria as relações. Dessa forma a utilidade em se guiar por impulsos mostra-se crucial. Na ausência da racionalidade o instinto é de suma importância, pois do contrário o que sobra é a morte. Da mesma forma, na história do desenvolvimento de cada sujeito, certos instintos e impulsos primitivos estarão presentes pela vida toda e merecerão serem compreendidos no eu como parte integrante, lugar do qual na realidade, por direito, é seu.
Estamos falando de um tipo de vivência que não pode ser percebida como parte integral do eu e que amiúde nos impulsiona em direção ao mundo externo, aquilo que existe independente do eu. Podemos ter necessidade de olhar atentamente para algo que de alguma forma viabiliza a recordação de um fato ocorrido e que na ocasião não pudemos tomar consciência, e que hoje se manifesta na personalidade por meio de certa insegurança, por exemplo. Assistir a uma cena de horror pode ser uma oportunidade de viver certa experiência “na carne”, porém agora, de um outro ponto de vista. A contemplação do terror parece- nos, assim, uma tentativa de encontrar no mundo externo algo que coincida com vivências de terror interno, que de outra forma não pode ser exteriorizado. Mesmo sendo por intermédio de uma espécie de espelho, proporciona certa representação, ou seja, um vínculo com o real.
A Psicanálise nos ensina por meio de um modelo topográfico, que a consciência é gerada a partir da repressão da agressividade, e não podemos pensar em horror se não contando com algum tipo de agressão. No desenvolvimento da busca pela consciência, as experiências conduzem-se com o esforço de abrir mão da hostilidade para que se possa viver em certa harmonia no mundo, perto do outro. Porém, o processo que inicia da necessidade de reprimir, até a reintegração na consciência, daquilo que sempre foi do eu, mas nunca pode ser aceito por ele, é longo e requer grande presença de afeto. Reprimir é antes de tudo uma forma de defender-se, só se reprime algo que não pode ser aceito pelo outro, ou seja, pelo real. Mas, reprimir o impulso indesejável não significa que ele tenha desaparecido da personalidade. Aquilo que não é aceito pela personalidade consciente e é reprimido passa a existir em um modelo oculto. Seus conteúdos continuam na mente, mas são deslocados para um outro lugar. Um nível menos desenvolvido da personalidade, uma instância inferior no processo do pensar, no qual referências como tempo e espaço não têm utilidade. Um lugar do inconsciente, de onde um dia esse impulso surgiu como um representante na fronteira entre orgânico-fisico e psico-mental. “Se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, um ‘instinto’ nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo”, S. Freud, Os instintos e suas vicissitudes (1915).

Realidade nua e crua
Em 1978, uma série de documentários surge nas prateleiras das locadoras de vídeos e ao fazer tremendo sucesso alcançam sua quarta edição. Faces da Morte traz cenas de violência real, com situações que vão desde de cenas reais de suicídio até maltratos explícitos a animais. As torturas são o tema desse documentário que tem a realidade como palco.
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