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Um mal chamado co-dependência
Por trás da dinâmica familiar na qual impera a figura do cuidador pode haver um padrão traiçoeiro de relacionamento e interação, ocultando fragilidades emocionais

Por Bety France

SHUTTERSTOCKConsidero relevante escrever sobre este tema, não só por ele prevalecer nas discussões atuais, como para evitar que pais e educadores perpetuem o mesmo ciclo de abusos e interação familiar disfuncional que geram filhos co-dependentes ou portadores de outras doenças.

Minha prática clínica revela como a aplicação de Técnicas de Educação Disfuncionais e um ambiente familiar contaminado pelo alcoolismo e outras desordens compulsivas podem comprometer o desenvolvimento humano e favorecer o surgimento de doenças, mais enfaticamente desta de que trato aqui, a Co-dependência.

Infelizmente, muitas famílias estão imersas em situações problemáticas, mas preferem a acomodação à transformação. Afinal, transformação requer trabalho árduo e gera desconforto. Muitas vezes conviver com um problema conhecido é mais fácil. A negação do problema é uma forma de manter a doença, evitar os sentimentos de ansiedade, medo, culpa, e preservar a homeostase familiar.

Inicialmente, acreditava-se que as raízes da Co-dependência estavam relacionadas às experiências de abuso da infância e à maneira como fomos afetados pela convivência com pessoas viciadas em álcool ou com outras desordens compulsivas.

A convivência com alguém doente e fora de controle por causa da dependência química parecia determinar os sentimentos (vergonha, medo, raiva, dor) e comportamentos dos outros membros da família. O membro viciado tornava-se o foco principal da família, mobilizando os demais para assumir seus cuidados de maneira compulsiva. Na verdade, codependentes e dependentes químicos apresentam condições físicas e emocionais similares - um é viciado em drogas, o outro, em relacionamentos obsessivos.

Porém em alguns casos, observou-se que, quando os alcoólatras ficam curados, o comportamento co-dependente da família permanece e às vezes até se intensifica. Então, passou-se a suspeitar que as causas ocultas dessa doença antecedessem o vício da bebida, e que outros fatores poderiam produzir um co-dependente.

Sem dúvida, ter um educador negligente e abusivo e um ambiente familiar contaminado por vícios e desordens compulsivas são fatores intimamente relacionados ao surgimento da Co-dependência em outros membros da família, mas definitivamente não são os únicos capazes de deflagrar a doença.

Embora cada co-dependente apresente uma experiência única originada de sua convivência familiar e de sua personalidade, um ponto comum aparece em todas as histórias de Co-dependência - a influência dos outros sobre o comportamento do co-dependente e a maneira como o co-dependente tenta influenciar os outros (sejam alcoólatras, sejam viciados em jogos ou compulsivos sexuais, sejam indivíduos com reações excessivamente emocionais ou indivíduos sem autonomia financeira).

Em essência, os co-dependentes são muito sensíveis aos problemas alheios, dizem sim quando querem dizer não, guardam o que sentem para não ferir os sentimentos alheios, preferindo ferir a si mesmos. Essas pessoas freqüentemente parecem ser delicadas e prestativas, tentam ajudar em nome do amor. Porém, o exame mais minucioso revela que elas têm enorme necessidade de controlar e manipular o outro e fazer o que querem.

Como todo investimento para controlar o outro é inútil, o co-dependente sente-se impotente. O arrependimento e a autopiedade surgem, fazendo-o sentir-se usado. E para piorar a situação, a pobre pessoa "a quem tentamos resgatar não é capaz de demonstrar gratidão". Co-dependentes dão mais do que recebem, e depois se sentem abusados e negligenciados. Seu maior inimigo chama-se autovalorização reduzida.

Co-dependência é uma dependência paradoxal. Embora os co-dependentes pareçam objetos da dependência, eles é que são dependentes. Parecem fortes, mas se sentem indefesos. Parecem controladores, mas na realidade são controlados pelos vícios e comportamentos de outras pessoas. Co-dependentes não são mais disfuncionais ou doentes que os dependentes químicos, mas sofrem tanto quanto eles, ou mais. Pois comumente suportam sua dor sem o efeito anestésico do álcool ou de outras substâncias químicas.

IMAGENS: SHUTTERSTOCK
A Co-dependência pode desencadear, entre outros comportamentos e sensações, abuso de substâncias químicas, violência familiar e ansiedade

Na verdade, ainda não se chegou a um consenso se a Co-dependência deve ser definida como doença ou como reação normal a pessoas anormais. Particularmente, considero a Co-dependência uma enfermidade progressiva, que mantém e alimenta a doença das outras pessoas, impedindo-as de conquistar a autonomia e assumir responsabilidades. Co-dependentes desejam e precisam de pessoas doentes e dependentes a sua volta, pois só assim se sentem felizes a sua maneira - patológica.

A dependência pode ser química, emocional, financeira e física conforme a doença - clínica ou mental.

Sua progressão pode desencadear depressão com pensamentos suicidas, desordens alimentares, abuso de substâncias químicas, violência familiar, relações sexuais extra-conjugais ou promíscuas, emoções ou explosões intensas, hipervigilância, ansiedade, confiança ou negação excessiva e doenças clínicas crônicas. E, ao contrário dos dependentes químicos, os co-dependentes a que aqui me refiro dificilmente recebem tratamento, pois sua recompensa são justamente os cuidados que dedicam aos outros e os esforços que envidam para agradá-los.


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